Encontrando-se como artista após ter feito outra faculdade

Por: Natália Dias - 14/01/2019


Olá, meu nome é Natália Dias, mas você pode me encontrar na internet como @nataliadsw. Sou formada em História e, no momento, estou terminando meu mestrado. O que uma historiadora como eu teria para dizer em uma coluna de arte? Bem, acontece que eu também sou ilustradora e, por isso, gostaria de contar um pouco sobre a minha trajetória como uma bola curva no mundo das artes.

Eu sempre fui “a menina que desenha” da sala, mas escolhi fazer História na hora do vestibular, porque eu gostava da matéria e não me via trabalhando com desenho. Passei em duas universidades e comecei minha trajetória como historiadora, mas isso sofreu uma parada brusca com a greve de professores de 2012, no meio do meu primeiro semestre. Como não tinha “mais nada pra fazer”, ficava desenhando o dia inteiro, e passei a ganhar certa notoriedade na internet. Depois da greve, o volume de desenhos diminuiu, mas não cessou. Por volta de 2016, eu estava me formando e estudando para a prova de mestrado e passei por um momento bem difícil de dúvidas. Afinal, será que eu estava no caminho certo?

Comecei o mestrado no ano seguinte, mas as dúvidas não foram embora. Desenhava cada vez menos devido às exigências da pós-graduação, a um imenso bloqueio criativo e uma falta de vontade generalizada de fazer qualquer coisa. Ao mesmo tempo, eu tinha criado uma conta no Instagram há poucos meses que eu tentava atualizar como forma de escape.

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De repente, perto do fim do ano, meu nome foi colocado nos Stories de um grande artista brasileiro no Instagram e ganhei centenas de seguidores em poucas horas. É claro que gostamos quando temos o nosso trabalho reconhecido, e isso me deu forças para continuar desenhando e crescendo. Um ano depois disso, eu consegui multiplicar em cem vezes a minha base de seguidores e muitas portas se abriram para mim no mundo das artes. Assim, me vi terminando o mestrado, mas ainda com aquela dúvida: o que eu quero para mim?

A verdade é que eu ainda não sei. Eu gostaria de poder ser ilustradora, mas também gostaria de trabalhar com História. Eu gosto da faculdade que fiz, não me arrependo de tê-la escolhido, porque ela foi essencial para expandir meus conhecimentos sobre determinados assuntos, e conhecer pessoas e realidades fora da minha bolha. Pretendo arranjar um emprego em que eu consiga conciliar as duas coisas, pelo menos por um tempo, para ter mais certeza das minhas decisões.

Mas a mensagem que eu gostaria de passar com esse relato é que você não precisa necessariamente ter feito uma faculdade relacionada a desenho para seguir a profissão. É claro que o curso pode te dar um diploma, ajudar a crescer como artista, aumentar sua bagagem cultural e criar contatos importantes, mas também é essencial entender que quem faz a faculdade (e a sua vida) é você. O curso pode te dar todas as ferramentas, mas se você não as desenvolver não terá adiantado nada, e talvez uma pessoa que nem fez a faculdade seja capaz de fazer mais coisas por ter praticado e se empenhado constantemente.

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Para aqueles que seguiram por outro caminho, como eu, digo que há esperança. Só devemos nos esforçar um pouco mais para aprendermos sozinhos. Talvez seja necessário fazer alguns cursos livres para ter uma base técnica mais sólida (como os muitos ofertados pela plataforma Inspirarte), e também é possível aprender várias coisas com os mais diversos tutoriais disponíveis pela internet e com livros. Se você já terminou um curso e quer seguir outro relacionado às artes, vá em frente e faça o que acha que é melhor e que se encaixe em sua vida de acordo com a sua realidade socioeconômica. Se você já está em curso de artes, agarre-o com unhas e dentes e vá além do que do que é ensinado na faculdade.

Eu ainda estou no caminho da bola curva, tentando me adequar a esse mundo das ilustrações sobre o qual me joguei. Tenho plena consciência de que ainda há muita coisa para melhorar e é bem provável que eu faça cursos livres para aprender mais rápido, mas tenho certeza de que é possível adentrar essa nova realidade.

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Inspirações e técnicas

Acho que fica evidente nos meus desenhos que o que eu mais gosto de desenhar é a figura feminina. Eu particularmente gosto mais da grande gama de possibilidades que as mulheres podem dar aos desenhos, e pesquiso bastantes referências de poses e cores para dar às ilustrações uma base estrutural que ainda preciso desenvolver. Para isso, sigo muitos artistas nos Instagram e, quando vejo algum desenho ou foto que gosto, me pergunto “por que eu gostei disso?”. A partir desse ponto, tento colocar no papel o que me chamou a atenção e passar isso para o meu próprio jeito de me expressar. Talvez eu tenha gostado de uma pose, da iluminação, das cores, das dobras nas roupas ou do cabelo.

Inclusive, creio que desenhar cabelos seja a minha real paixão. Desde sempre quis fazê-los bonitos e acabei desenvolvendo uma técnica em que prefiro dar a eles mais movimento do que um aspecto estritamente realístico. Minha dica seria imaginar a forma do cabelo como “um todo” e depois dividi-lo em partes grandes ao invés de se concentrar em cada fio. Afinal, quando olhamos para os cabelos de alguém nós não vemos fio por fio, mas sim mechas

Após fazer todo o esboço do que imagino o desenho, e se está de acordo com a fluidez que procuro, passo para a arte final e enfim faço os detalhes. Aliás, não tenha medo de fazer vários rascunhos, já que nem sempre a primeira ideia reflete realmente o que você tinha em mente e por isso não vale a pena fazer muitos detalhes nessa fase.

Normalmente eu prefiro começar desenhando no papel, com lápis ou lapiseira, mas às vezes uso lápis de cor ou marcadores também. Se é um desenho em aquarela, transfiro o rascunho para uma folha de aquarela, porque se fizer direto nela pode danificar o papel, e começo a pintar. Se é um desenho digital, eu escaneio o rascunho e passo a colorir por cima dele usando o programa Paint Tool Sai. Uso o Photoshop apenas para editar cores e salvar o desenho final com uma qualidade melhor.

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Vídeos inspiradores




Vídeo do Gabriel Picolo em que ele conta que era recepcionista de hotel e foi aos poucos transformando seu hobby em trabalho


Um rápido vídeo que postei em meu recente canal de Youtube. Tentei mostrar um pouco de como faço cabelos.


Vídeo (em inglês) com dicas bastantes pertinentes sobre como estruturar e desenhar cabelos.


Vídeo em português sobre como estruturar cabelos.

Natália Dias é uma ilustradora e historiadora apaixonada por criar usando diversos estilos, materiais e inspirações. Suas ilustrações de figuras e personagens femininas fazem referência ao art nouveau, aos desenhos Disney e aos mangás, mas tudo com uma cara nova, pessoal e única.



Comentários:

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Henrique Erculano 15/02/2019 19:36:27

Passei por uma situação semelhante e vivo alguns desafios. Sempre curtir desenhar, artes de uma maneira geral. Mas acabei fazendo uma faculdade fora da área, no caso administração. Trabalhei por anos nessa área mas as artes sempre foi minha paixão. hoje estou mudando de carreira e seguir trabalhando com desenho e ilustração.

Caroline MBG 06/02/2019 22:44:22

Estou mais ou menos em uma situação semelhante. A diferença é que me arrependo por ter escolhido engenharia pela pressão de familiares e por não dar muito crédito ao design, por exemplo. Estou na reta final do curso, e não está sendo nada fácil. Todos os dias é uma carga de angústia por me sentir "não pertencente àquele lugar". De todo modo me acalmou um pouco o coração ler o teu relato, obrigada. Sua arte é sensacional!

Valdeir Silva 23/01/2019 13:11:43

Show de bola, estou passando pela mesma situação que você. Atualmente estou prestes a concluir meu curso de Engenharia, sempre quis fazer isso, tem minha cara. Mas mesmo assim me perguntava se eu queria mesmo seguir carreira com Engenharia... outra coisa, ando tendo muito bloqueio. Isso está me preocupando.