A importância do erro

Por: Eduardo Vieira - 21/05/2018

Olá! Meu nome é Eduardo Vieira, sou Ilustrador e Designer de Personagens. Fui convidado pela Faber-Castell a escrever uma coluna para o Inspirarte, e, nesse primeiro texto, a falar um pouco sobre canetas esferográficas e canetas nanquim!

As duas são ferramentas de desenho incríveis e extremamente versáteis! Mas, se você já usou alguma das duas para rabiscar, sabe que uma característica importante delas é o fato de que não podem ser apagadas. Isso pode ser algo assustador, a princípio, uma vez que tira das nossas mãos a sensação de controle sobre o resultado. Mas essa perda pode ser encarada como algo bom: ela reforça a importância do erro importância do erro na construção do nosso repertório como artistas - quando nós somos constantemente educados a caminhar na direção contrária.

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Nós temos vergonha dos nossos erros como se eles, de alguma forma, dissessem que nós somos incapazes de realizar algo com competência. Como se isso já não fosse problema suficiente, o imediatismo da nossa busca por excelência (não só na arte, mas em diversos outros aspectos da vida!) foca quase sempre em obter resultados positivos, e não nas experiências do processo. Mas deixa eu te perguntar, honestamente: você alguma vez já parou para pensar em como o erro é importante para o nosso crescimento?

Quando nos propomos a fazer algo, e de alguma forma falhamos, a primeira coisa que acontece conosco é um óbvio descontentamento - mas logo em seguida, entramos em um estado de alerta mental que nos permite uma aprendizagem com aquela experiência. Nós tentamos descobrir o que aconteceu e porque não alcançamos o resultado que queríamos. É esse tipo de situação que nos faz encontrar soluções para os problemas do nosso dia-a-dia. Ou seja, o erro é parte do nosso aprendizado!

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Na arte, isso é algo ainda mais complexo: afinal, ela não é uma ciência exata! Temos inúmeros resultados para cada pergunta – não é simplesmente uma questão de “certo ou errado”, “bonito ou feio”, “funciona ou não funciona”.

Essa “perda de controle” sobre o processo (que eu citei lá no começo) foi algo que me apavorou durante muuuito tempo. Muito tempo MESMO. Eu acreditava que os grandes artistas tinham total entendimento e controle sobre o processo, e consciência de como conduziriam um trabalho do começo ao fim. Então, eu acabava evitando qualquer coisa que pudesse pôr em xeque a minha capacidade de controlar o resultado.

Quando eu comecei a usar canetas esferográficas, eu procurava um material que pudesse me permitir desenhar mais rápido, porque estava inconformado com a quantidade de tempo que eu perdia “corrigindo” o desenho, um processo interminável de desenhar e apagar, desenhar e apagar, desenhar e apagar. Eu desejava ter mais segurança no meu desenho, mas me faltava a experiência do erro - porque, como eu disse, eu não me permitia errar. Eu tentava controlar todo o resultado. E, na minha busca por controle do processo e dos resultados, eu esqueci o quão importante a espontaneidade poderia ser.

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Fazer os primeiros desenhos com caneta esferográfica e caneta nanquim foi obviamente uma experiência horrível, porque eu tinha TANTO medo de errar, que simplesmente não conseguia desenhar. Mas, conforme eu fui fazendo, e errando, e fazendo, e errando, e fazendo, e errando, eu percebi que os desenhos não precisavam ficar prontos na primeira tentativa - que aquilo era um processo de construção gradual, através da repetição, com uma evolução a cada nova tentativa. O meu desenho poderia até não atender ao resultado que eu buscava - mas o próximo desenho já tinha um ponto de partida, em tudo que eu havia aprendido com o anterior. Aquilo mudou completamente a minha visão e o meu entendimento sobre processo artístico, e se refletiu no meu trabalho, dali em diante, de forma impressionante.

Uma das coisas mais marcantes que aconteceu, desde então, foi que eu praticamente abandonei a borracha, e passei a incorporar todos os traços que faço em um desenho no resultado final. Não existe mais uma divisão entre quais linhas são as “certas” e quais são as “erradas” – TODAS são parte do processo de construção que me possibilita chegar em um desenho final.

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Eu ainda tenho, claro, um caminho muito longo a percorrer como artista. Mas acredito, sinceramente, que desapegar da noção de “erro”, e entender que ele é parte de um processo natural de aprendizado, foi algo completamente libertador.

Vídeos inspiradores




Compartilho aqui com vocês esse podcast em que conversei com os artistas do Canal ICONIC, falando um pouco sobre o meu trabalho, alguns pontos que considero importantes no meu processo de produção artística, além de assuntos realmente importantes, como as maravilhas da culinária nordestina! :)


O escocês Charles Watson é professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de janeiro, palestrante, e pensador de arte. Uma ótima conversa sobre como o processo de fazer, e fazer, e fazer novamente, sem cessar, é importante para a construção da experiência artística.


Scott Robertson é um professor do Art Center College of Design, nos EUA, e em seu canal, costuma convidar alguns artistas para discutir sobre seus processos criativos. Nesse vídeo, ele conversa com o artista Darren Quach, enquanto folheiam o sketchbook do artista. Uma ótima discussão sobre processo de produção, uso de canetas, a necessidade de experimentação no desenho, etc.


Eu já devo ter visto esse vídeo umas 100 vezes, mas cada vez que vejo, me impressiono como se fosse a primeira vez. Kim Jung-Gi, senhoras e senhores.


Sergio Pablos é um animador fantástico, que trabalhou para a Disney nos anos 90 e 2000, e hoje tem um estúdio que carrega o seu nome. Nesse vídeo, ele compartilha algumas dicas bem legais sobre criação de personagens!


O artista Enrique Fernandez mostra, nesse vídeo, como foi o seu processo para fazer as páginas de NIMA, sua mais recente HQ.

Eduardo Vieira é um Ilustrador e Designer de Personagens tentando achar seu lugar nesse mundo grande através da sua arte! Além disso, gosta de pizza, futebol, videogame, música dos anos 80-90 e maratonas de Netflix.



Comentários:

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Leonardo Romão 26/05/2018 02:52:09

Simplesmente apaixonado pelo trabalho de Eduardo Vieira e uma mega inspiração!!!!

Fernanda Martins 25/05/2018 14:54:59

Ótimo texto e muito importante o conteúdo. Acho que os erros são importantes e que é impossível fazermos algo totalmente perfeito.

Anderson Finho 24/05/2018 22:17:52

Muito shou Eduardo belíssimas palavras

Ana Beatriz N. Nova 24/05/2018 15:20:08

Poxa ... adorei o seu texto. Super me identifiquei. Muitas vezes eu erro ...alias erro mais do que acerto.... mas desenhar é a minha vida. Sempre quero aprender mais e mais e os meus erros são a minha motivação. Eu já seguia vc. Vc desenha muito. Parabéns !!!!

• Daniel Wu • 24/05/2018 08:25:13

q lindo <3 super me identifiquei (com a parte de nao se permitir errar, nao com a parte de ter superado isso. risos)

yanna Amorim 23/05/2018 10:28:46

Conheci seus trabalhos, atraves de uma live na faber... Lembro q eu estava desanimada, justamente pegava no lapis..nao conseguia passar, a ideia de minha mente para o papel. Trabalho muito com.nanquim tambem...e sua live foi uma injeçao de animo para eu continuar criando personagens usando materias que nao seja arte digital..admiro muito seu trabalho . Os videos que selecionou, sao de artistas otimos. Parabens.

Livia Ximenes 21/05/2018 23:41:27

Parabéns... muito motivador o seu texto... realmente a gente aprende desde muito cedo que o erro é algo ruim e sem benefícios para a aprendizagem...