Como comecei a criar a partir de uma adversidade

Por: Luiza de Souza - 02/07/2018

Oi, meu nome é Luiza, mas você pode me encontrar na internet como @ilustralu. Sou ilustradora, quadrinista, moro em Natal (RN) e comecei a desenhar depois de ser atropelada. Não, não foi de uma forma poética, onde a arte me derrubou no chão - foi um carro mesmo. Eu tive fraturas expostas na perna e alguns dias antes, tinha comprado um caderno porque queria me dedicar ao desenho e de repente eu tinha mais que uma vontade e uma desculpa - eu tinha MUITO tempo e isso foi suficiente para que eu passasse meus dias inteiros desenhando.

Nessa jornada de aprender a desenhar, existia a dificuldade técnica de quem parou de desenhar depois de alguns anos do ensino fundamental como quase todo mundo, e eu não fazia ideia de quais materiais eu precisava comprar para ser incrível. Como a gente tem que começar de algum lugar, eu comecei tentando entender como os ilustradores e quadrinistas que eu gostava faziam para criar todas aquelas coisas que me encantavam tanto. Eu via os artistas que eu gostava usando materiais e ficava meio desesperada para usar as mesmas coisas, na esperança de que tal caneta ou tal pincel fosse me fazer melhor naquilo num passe de mágica - não demorou muito (tempo e dinheiro gasto em papelaria) para eu entender que não era exatamente por aí que as coisas iam se acertar, não tinha caneta no mundo que melhorasse o traço sem treino.

Imagem Arte
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Gosto de pensar que desenhar bem é quase como o treino de uma pessoa que corre. Não tem como você correr uma maratona sem nunca nem ter dado a volta no quarteirão. Você se aquece e começa aos poucos. Os tênis usados podem até ajudar um pouco, mas são os seus pés que vão percorrer o caminho. Todos os dias de treino e o tempo da caminhada no quarteirão se transforma numa corridinha pelo bairro. Caso exista uma rotina de treinos, seguida com cuidado, quando você menos espera, pode estar correndo uma maratona, se quiser. Para desenhar é a mesma coisa: entender que não tem como passar a vida à base de boneco de palitinhos (nada contra, eles podem contar histórias incríveis, inclusive) e querer desenhar como um pintor renascentista achando que vai ficar igual só porque tá usando a mesma tinta. Você precisa de prática, de cuidado, de rotina e, antes de mais nada, de paciência! Principalmente quando você quer um traço para chamar de seu.

Eu aprendi a pegar um tantinho do que entendia de cada artista que me inspirava e aplicava nas minhas infinitas tentativas de esquecer o tédio de não poder andar, me distraindo nas páginas daquele caderno. Comecei a colocar uma botinha no lugar do nariz dos meus desenhos (eu não sabia como desenhar um nariz sem ser assim) e as pessoas começaram a reconhecer quando o desenho era meu. E isso, por um tempo foi incrível.

Mesmo que eu soubesse de onde era cada referência, quais os artistas que tinham influenciado minha maneira de expressar aqueles desenhos, tinha algo de novo ali, e era coerente mesmo alguns anos depois. Só que ter um traço reconhecível vem com a sensação de estar sempre fazendo as mesmas coisas, que é uma porta aberta para a síndrome do impostor entrar! E como já defendia o célebre ditado da internet "quem se define, se limita", talvez fosse a hora de sair da minha zona de conforto e testar outros materiais, outros traços, novas possibilidades - coisa que eu não fazia há muito tempo.

Imagem Arte
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E entre muitas descobertas, talvez a mais válida foi a de que eu não precisava caber em nenhuma das caixinhas de ilustração e quadrinhos pré-programada, eu posso fazer as coisas do meu jeito porque no fim das contas, não existe um caminho certo, e a sua forma de criar pode ser inspirada por literalmente qualquer coisa - uma situação cotidiana que pode passar despercebida e daria uma bela fotografia, uma música que você ouviu mil vezes antes de realmente prestar atenção, ou materiais que você passou um tempão ignorando porque nunca imaginou como ele poderia ficar combinado com outro, podem destravar um bloqueio que você nem sabia que tinha. Foi mais ou menos isso que eu senti quando um dia estava usando lápis de cor e tive o impulso de combinar com as canetas PITT artist pen, quase que amor à primeira vista e uma prova (pelo menos para mim), que sempre tem como a gente se reinventar e encontrar a própria identidade mesmo num traço diferente do de sempre!

Espero que toda essa história de pernas quebradas e desenhos inesperados possa inspirar vocês!

Vídeos inspiradores




Este vídeo é um stand comedy dramático sobre toda essa história da perna e como os desenhos salvaram a minha vida.


Uma das coisas que mais me inspiram nesta profissão é conhecer o cotidiano e o caminho que faz cada pessoa enxergar o mundo de uma forma diferente. A Frannerd mostra bastante desses caminhos na vida dela à cada vídeo.


Apenas assista.

Ilustradora e quadrinista, Luiza de Souza cursou Comunicação Social na UFRN e mora em Natal (RN). Abandonou a vida de agência para trabalhar com ilustração desde o início de 2014. Gosta de pensar que é uma pessoa muito comum, com apenas alguns costumes estranhos, cabelo bagunçado, um pouco empolgada, com alguns projetos na manga e cultura inútil de sobra.



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