Não ter medo de errar e arriscar é uma das principais armas de criação.

Por: CAROLINA ROSSETTI - 28/08/2019


Não vou começar essa carta perguntando como você está por dois motivos: primeiro, porque minha cara vai se contorcer se eu ler a resposta “aqui tá tudo 10!”. Segundo, porque ainda lembro bem de todo o turbilhão de dúvidas profundas e certezas tolas que estavam presas no meu peito, nessa época. E essa carta é pra tentar deixar isso mais leve.

Imagem Carol Rossetti


Você tem 15 anos. Você desenha a aula inteira. É difícil focar na matemática. Tá tudo bem. Continua difícil, mas em breve você só vai precisar fazer regra de três. E, já que tocamos nesse assunto, presta mais atenção na regra de três composta, porque você vai passar vergonha consigo mesma quando não conseguir fazer uma conta dessas daqui a uns anos. Mas, no geral, deu tudo certo.

Você está desenhando mangás, né? E lendo mangás, também? Sua primeira experiência com quadrinhos além de Turma da Mônica. Você é, ao mesmo tempo, orgulhosa e envergonhada dos seus desenhos. Pode sentir orgulho, tá desenvolvendo muito seu traço. E, ainda que essa onda passe, algumas referências do mangá vão ficar com você pra sempre. São pequenos elementos do que o Neil Gaiman chama de “composto criativo”. É, eu sei que você ainda não sabe quem é esse cara. Daqui a um ano e pouco, vai descobrir, e isso vai mudar a sua vida. Mas eu sei que a única coisa que você guardou de tudo que eu escrevi nesse parágrafo é que a onda do mangá vai passar. Parece inacreditável, mas vai mesmo. Exceto Fruits Basket. Esse vai ficar com você pra sempre.

Imagem Carol Rossetti


Carol, Carol... Não alimenta tanto essa sua birra com cores. Tenta colorir seus desenhos, é legal. Não, não adianta fechar a cara. Acredite se quiser, vai se sentir imensamente confortável com aquarela, tanto que vai ter um projeto chamado “Cores”. Eu sei. Você só gosta de desenhar com lapiseira, no máximo nanquim, e de preferência no papel pautado. Vai conseguir desapegar do papel de fichário, mas na sua mesa jamais faltará nanquim nem grafite 0.7.



Imagem Carol Rossetti


Carol, você tá pensando em fazer design gráfico na faculdade, né? Tá pensando nisso desde que uma pessoa querida te disse que é legal e que não tem matemática. É tudo verdade. Mas você vai parar de desenhar na faculdade e só vai retomar uns dois anos depois. Não sei bem o porquê... Em parte, porque no design tem muito menos desenho do que você imagina. Mas, também, porque você está descobrindo um mundo novo de possibilidades e se apaixonando pelo design. Está tudo bem. Isso tudo vai ser útil.

O mangá é útil, o Harry Potter é útil, o design é útil, todos os quadrinhos que você ler, todas as músicas que ouvir, todos os filmes e séries que você ver serão úteis. Faça as coisas que gosta. Colecione histórias. Pegue tudo isso e misture dentro de você. Repare em como estas referências fazem você se sentir. Quando você precisar de ideias, é daí que elas surgem.



Imagem Carol Rossetti


Carol, em um momento específico (você vai saber qual é quando ele chegar), você vai se sentir presa. Você vai estar com um trabalho legal, que te dá uma certa segurança de um dinheirinho fixo no final do mês, mas que te deixa exausta. Você não vai conseguir tocar seus projetos pessoais, vai estar recebendo pouco e vai ver que o clima nesse ambiente de trabalho está mudando. Escute seu coração. Saia. Não precisa ter tanto medo, você é uma pessoa mega privilegiada e não corre o risco de passar fome. Pegue tudo que aprendeu lá, seja muito grata a todo mundo que te ensinou esse tanto de coisa que você aprendeu e pode ir embora. Você só avança quando se movimenta. Não deixe o medo te paralisar.



Imagem Carol Rossetti


Você vai trabalhar com design. E com ilustração. E com quadrinhos. Quando menos esperar, você vai dar uma palestra e vão te anunciar como “artista”. Vai ser estranho ter esse rótulo colado em você, que sempre mirou no desenho mas nunca considerou o conceito de arte pra si mesma. Tá tudo bem, você vai conseguir lidar com isso. A síndrome do impostor vai bater forte em vários momentos, mas você vai conseguir ficar de pé. Igual o Rocky fala: o importante é quanto você consegue apanhar e continuar de pé. Ah, pois é, eu sei que você ainda nem viu esse filme, mas daqui a pouco você vai conhecer um menino esquisito que vai te colocar pra ver. E o mais louco é que você vai gostar. Aliás, o mais louco mesmo é que você vai se casar com esse menino estranho.

O que eu tinha pra te dizer de mais importante, Carol, é que tá tudo bem. De verdade. Não precisa ter tanto medo de errar, nem no desenho nem na vida. A borracha é sua amiga e é errando que se aprende. Tenha coragem pra falhar, porque é sua única chance de acertar. Não precisa tentar controlar tanto sua vida, porque os imprevistos te trarão surpresas incríveis. Você está indo bem. Você tem esse hábito saudável de sempre reavaliar suas prioridades e buscar entender o que sente e o que quer. Continue fazendo isso. E fica tranquila que essa tatuagem que acabou de fazer nunca vai te trazer arrependimento. E é a primeira de muitas.

Tamo juntas e shallow now! (Daqui a 15 anos, você vai entender a referência)

Carol de 31 anos



Carol Rossetti é designer gráfico e ilustradora muito famosa pelos seus projetos autorais que se espalharam pelas redes sociais: “Mulheres” e o “Cores”. Ela faz artes comissionadas, ilustrações de livros, postais e participações em eventos para divulgar seu trabalho, que é muito criativo.



Comentários:

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Ismália Siqueira 04/09/2019 08:55:39

Que lindo! Minha filha tem 16 e acho que bate muito com a Carol de 15! Vou mostrar pra ela (ah, e ela já adora sei trabalho <3!)

Camila Amaral 01/09/2019 09:33:30

Otíma matéria, me identifiquei muito.