Ilustrando para livros infantis

Por: Adilson Farias - 05/06/2020
Coluna

 

Olá! Sou Adilson Farias, ilustrador e autor de livros infantis. Trabalho no mercado editorial há mais de duas décadas, ilustrando livros didáticos e paradidáticos, em parceria com os principais autores e editoras nacionais. Primeiramente, quero dizer que estou muito feliz com o convite para participar desta coluna e poder compartilhar um pouco da minha experiência ilustrando livros para crianças.

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Pretendo neste texto passar algumas ideias sobre o que é ilustrar um livro infantil. Muitos podem pensar que a ilustração para a infância é algo simples, colorido e fofo. Porém, um bom livro ilustrado é muito mais do que um livro decorado com imagens.

Antes de começar a trabalhar no mercado editorial tive pouco contato com a literatura infantil, infelizmente. Eu mesmo tinha essa ideia de que tudo se resumia a livros com imagens coloridas. Contudo, quando tive meu primeiro contato com o processo de criação para essa área, foi apaixonante e me fez ver como a maneira de se contar histórias com texto e imagens pode ser algo criativamente muito envolvente e rico, trazendo a possibilidade de inúmeros universos a serem explorados. Descobri que o livro infantil é direcionado não apenas para crianças, mas também para a infância interior de muitos adultos.

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Quando o ilustrador tem a liberdade criativa, há a possibilidade de apresentar junto ao texto uma segunda narrativa. Muitas vezes uma outra história pode ser contada por meio das ilustrações. O artista cria a partir da leitura que faz da história e, trazendo à tona sua visão de mundo, enriquece ainda mais a obra.

Geralmente um ilustrador iniciante tende a repetir em imagens o que está escrito no texto. É uma noção básica e muitos livros infantis seguem esse padrão: a imagem como uma espécie de tradução literal do texto.... No entanto, essa narrativa padrão despreza o potencial imaginativo do leitor. Uma narrativa visual que dialoga apenas como um espelho literal do texto não complementa em nada.

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Quando entendemos que a ilustração pode incentivar a imaginação para além das palavras, temos a possibilidade de propiciar uma experiência muito mais imersiva e rica, possibilitando que a imaginação do leitor faça parte da experiência estética, a leitura. Não devemos subestimar o potencial imagético e cognitivo das crianças.

Em muitos casos, o não óbvio é o que faz a diferença. Um exemplo que é sempre citado, é do clássico Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Logo nas primeiras páginas, o Pequeno Príncipe pede ao piloto que desenhe um carneiro. O piloto faz vários desenhos e todos são reprovados pelo príncipezinho. Até que o piloto decide desenhar uma caixa com furos e diz “Está aí dentro o seu carneiro”. O Pequeno Príncipe fica satisfeito, pois o piloto deu a ele o poder de imaginar o carneiro da maneira que ele gostaria que fosse.

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Para as crianças, o mundo ainda é um lugar muito estranho e misterioso, aberto a múltiplas interpretações e é importante que elas encontrem os seus próprios significados e entendimentos.

O livro é um refúgio criativo onde as regras (como composição de personagem, expressões cartunescas, paleta de cores e métodos batidos e repetidos comercialmente) dão lugar a uma rica possibilidade de experimentar. Cada história é um mundo à parte e de responsabilidade do ilustrador desvendar as entrelinhas mais ocultas do texto, descobrindo suas sensações, suas diferentes vozes, sua multiculturalidade. No livro infantil, articular ideias é muito mais importante do que dominar técnicas de desenho e pintura.

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Em nosso país, não temos, lamentavelmente, uma grande quantidade de conteúdos acadêmicos sobre os processos do livro ilustrado, mas temos grandes ilustradores que enriquecem constantemente a literatura destinada inicialmente às crianças. Por isso, uma dica que sempre dou, a quem deseja trabalhar com literatura infantil, é buscar ler, comprar diversos livros com estilos variados e se permitir aprender com cada um deles. Mesmo em alguns que possam não agradar, há o que aprender se observarmos a narrativa visual de cada artista, se estudarmos a paleta de cores e traços que fogem do padrão... O livro infantil é uma mídia que abriga (e exige!) inúmeros estilos, técnicas e muita criatividade.

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Permita-se explorar, testar, errar, acertar e mergulhar nessa aventura emocionante que é criar para essa linda obra de arte: O livro infantil!

Se você se interessa pelo tema, siga meu Instagram [ @adilsonfarias ]. Lá frequentemente dou dicas sobre o assunto enquanto ilustro livros e passeio pelas possibilidades deste universo mágico. Me siga também aqui no Inspirarte e vamos conversar.

 

Dicas de leitura:

1. Pelos Jardins Boboli (Rui de Oliveira)

2. Traço E Prosa (Vários Autores)

3. Livro Infantil Ilustrado (Martin Salisbury e Morag Styles)

 

Olá! Sou Adilson Farias, ilustrador e autor de livros infantis. Trabalho no mercado editorial há mais de duas décadas, ilustrando livros didáticos e paradidáticos, em parceria com os principais autores e editoras nacionais. Primeiramente, quero dizer que estou muito feliz com o convite para participar desta coluna e poder compartilhar um pouco da minha experiência ilustrando livros para crianças.



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